O Pequeno Príncipe

imagem de Giordano
Enviado por Giordano em dom, 08/23/2015 - 15:41

As primeiras dez páginas de O Pequeno Príncipe, ao menos até o narrador – o aviador – declarar que, por ser obrigado a se tornar um adulto, e, portanto, incapaz de enxergar o carneiro dentro da caixa que ele próprio desenhou para o príncipe do título, trazem consigo um espelhamento da frequente falta de sensibilidade de qualquer espectador frente a possibilidades imaginadas por uma imagem, com o perdão do aparente pleonasmo.

Confesso que, na infância, o livro não me despertava muito além de tédio. Desde que aprendi a ouvir estórias, e posteriormente lê-las por conta própria, sou um grande entusiasta da literatura infanto-juvenil fantástica, mas o clássico moderno de Exupéry nunca me motivou. Talvez porque sempre tenha pensado a narrativa apenas como um fiapo condutor entre uma série de parábolas. E como uma criança que estudou em um colégio católico, assistindo animações de causos bíblicos (vários protagonizados pelo Smilinguido), nunca tive paciência para parábolas.

Depois de reler algumas vezes em idades diferentes, tentando enfim compreender o que separa a coletânea de diálogos filosóficos propostos por O Pequeno Príncipe de um Paulo Coelho, por exemplo, para que desperte tamanho encantamento. Nas primeiras elucubrações, não consegui encontrar muitos motivos além das belíssimas e simples ilustrações que se inseriram definitivamente na cultura visual do século XX, ou do pioneirismo histórico em inserir de maneira direta algumas reflexões filosóficas complexas como responsabilidade emocional e morte em um contexto infantil. Talvez o que me afaste do envolvimento narrativo com o livro, ainda que reconheça a relevância da discussão frente ao tal essencial invisível aos olhos ou à natureza e agonia do amor, seja justamente a maneira excessivamente objetiva, e até didática, que esses pensamentos são dispostos na estória, cuja narrativa e jornada de personagem são, para mim, tão envolventes quanto são os diálogos de Platão que parecem ter influenciado parte da retórica. Sendo assim, as filosofias diluídas em conflitos narrativos construídos por outros autores como James Barrie, Lewis Carroll ou Roald Dahl, por exemplo, sempre me foram muito mais atraentes.

No entanto, fiz uma última leitura, que realizei antes de assistir ao novo filme de Mark Osborne, realizado no ano em que a morte do autor completa 70 anos, libertando assim seus personagens e iconografia para domínio público. Tudo que me incomodava ainda me incomoda, mas me encantei com a estranheza e as inconclusões do diálogo travado no primeiro encontro do aviador e do príncipe, e ao direcionar o olhar não para o príncipe de pensamento pueril e vocabulário erudito, mas para o aviador, esse diálogo demonstra um forte potencial para um estudo de personagem: o aviador partilha de Sancho Pança o ímpeto em deixar-se infectar pelo pensamento mágico do interlocutor (ou Quixote ou o Príncipe), mas ao mesmo tempo, é atingido pela força gravitacional da adulteza que o impede de reviver profundamente a experiência da infância.

Compreendendo que essa dicotomia é um dos elementos mais fortes do livro, o filme de Osborne relê a obra tomando uma série de liberdades metalingüísticas, utilizando-a mais como ponto de chegada do que como ponto de partida. O filme parte do princípio de que, no século XXI, com o acesso à informação, a crescente competitividade do capitalismo e a aceleração natural do tempo, não só os adultos não conseguem ver o carneiro na caixa desenhada, mas também as crianças da classe média para cima tem dificuldade de fazê-lo, voltando aos poucos à condição de adultos em miniatura antes da invenção social da infância.

A protagonista aqui não é o aviador ou o príncipe, mas uma menina que acidentalmente entra em contato com esses personagens. O conflito que motiva a estória é entre a garota e a mãe controladora, que planejou todos os passos e ações necessárias para que a menina “vença na vida”, “seja alguém” ou algo que o valha. A partir de um acidente causado pelo vizinho, um aviador aposentado possivelmente senil, esses planos de vida se bagunçam, mudando a perspectiva da personagem sobre o presente e o futuro, através das histórias contadas pelo velho sobre seu encontro com um pequeno príncipe.

Ao utilizar a história de Antoine de Saint-Exupery e as ilustrações clássicas não apenas como fonte de inspiração, mas como elemento diegético, permite uma forte experimentação visual no estilo da animação, e não me refiro apenas à diferença de técnica entre o 3D para representar a história da menina e o Stop Motion para o universo do príncipe. A paleta de cores representando o bairro, e os elementos da vida da garota e de sua mãe, é toda constituída de tons de cinza e branco, em contrapartida à única casa da vizinhança que não segue os padrões modernistas de casa  genérica  como uma máquina-de-morar, mas sim um ambiente que claramente foi se acumulando e se construindo aos poucos, como é a experiência humana, transmitindo a personalidade de seu morador, o velho aviador. A maneira como os elementos da fantasia vão tomando conta da menina é perfeitamente representado pela escolha cromática dos objetos.

A maior liberdade vem no terceiro ato, quando as histórias da menina e do príncipe finalmente encontram um momento de intersecção, em uma aventura bastante inesperada dentro do padrão que vinha se construindo até então. Ao longo de todo o filme, vão surgindo metáforas visuais, ou em detalhes ou explícitos, que se esforçam ao máximo para tornar visível o essencial do livro, e de fato, atinge um resultado plenamente satisfatório, surpreendente e, com a ajuda das excelentes dublagens, até emocionante.

As grandes questões do filme não se baseiam nas epifanias provocadas pelos episódios da rosa ou da raposa, tampouco nos alegóricos residentes dos planetas visitados, que nesse filme ganham equivalências em personagens com funções realmente narrativas. Todas as questões do filme estão naqueles primeiros pequenos desentendimentos entre o aviador e o príncipe, quanto ao carneiro. O arco da menina e da sua mãe, triangulado pela presença do velho vizinho, ancora-se na máxima repetida algumas vezes pelo roteiro: “o problema não é crescer, é se esquecer”.

Poltronas 

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