Os Boxtrolls

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Enviado por Giordano em seg, 10/06/2014 - 01:37

Em O Livro das Selvas, o autor Rudyard Kipling trouxe para uma literatura de maior fôlego o conceito consagrado por Hans Christian Andersen como o patinho feio - o jovem que cresce afastado de seus iguais, e que se identifica mais com as criaturas com as quais cresceu do que com aquelas que se parecem fisicamente com ele. Falo, é claro, do herói Mogli, criado por animais na selva. Desde então, a temática se tornou recorrente na literatura e no cinema infanto-juvenil. As vezes, como uma adaptação declarada - como o tratamento que Neil Gaiman deu a história em O Livro do Cemitério, em que troca os animais por fantasmas.

Os Boxtrolls, nova animação da LAIKA (que vem se consolidando, depois de Coraline e de Paranorman, como um dos maiores redutos de criatividade no mundo da animação), não se declara uma adaptação de Kipling ou de Andersen, mas sem dúvida, traz a temática do "diferente" e da identificação familiar de maneira criativa e atual.

Adaptada de uma série de livros, a estória se passa numa cidade aparentemente vitoriana, cujos habitantes partilham da estranheza, palidez e apatia daqueles que habitam o imaginário de Tim Burton em filmes como Noiva Cadáver e Sweeney Todd, um menino humano é criado numa cidadela subterrânea por estranhos seres chamados boxtrolls. Esses seres, apesar de possuírem "trolls" no nome, não são aqueles monstros repulsivos e mesquinhos que moram embaixo das pontes irlandesas, mas sim pequenas criaturas ternas e adoráveis, tão medrosas e inseguras que vestem caixas de papelão o tempo todo, das quais jamais saem, e quando se sentem ameaçados, os boxtrolls recolhem-se como tartarugas em seus cascos.

O menino em questão também cresceu dentro de uma caixa, mais especificamente uma caixa de Ovo. Nesse mundo subterrâneo, cada boxtroll leva o nome que está em sua caixa. A identidade está ligada a maneira como o ser se veste. O menino, então, é batizado de Ovo.

Os Boxtrolls, todas as noites, sobem para o mundo dos humanos para caçar tesouros (basicamente, sucatas que os habitantes jogam no lixo). Toda noite, portanto, arriscam-se, pois os humanos da vila, com medo do diferente e acreditando que os Boxtrolls são nocivos e devoradores de bebês, tratam-nos como uma praga, contratando exterminadores para eliminá-los.

Numa dessas noites, numa idade que já tangência a adolescência, Ovo sobe para procurar tesouros junto ao seus pais adotivos boxtrolls, e ao fugir dos exterminadores, é flagrado por uma menina humana, que o reconhece como membro da sua espécie. O menino, por ser humano e não boxtroll, já está grande o suficiente para não caber mais em sua caixa, e acaba entrando numa crise de auto-descoberta.

No cerne de Boxtrolls, está a temática da identidade. Apesar de ter nascido humano, Ovo sente-se boxtroll. Como conciliar aquilo que lhe é imposto pela natureza e aquilo que lhe foi imposto socio-culturalmente? Se ele não mais cabe na caixa que lhe deu o nome, ele ainda pode sentir-se a mesma pessoa?

A animação da Laika chega em uma semana apropriada para esse tipo de discussão. Nessa primeira semana de outubro de 2014, as eleições brasileiras para a presidência da república foram dominadas pela temática da intolerância ao diferente, e do respeito a famílias não convencionais, questão presente em Boxtrolls desde seu primeiro teares. No vídeo promocional em questão, é salientada a diversidade de "tipos" de família (pai e mãe, dois pais, duas mãe, mãe e avó, família inteira e… boxtrolls).

No filme, há poucas personagens femininas de destaque. A mais evidente é a menina Winnie, que encontra Ovo e tenta inseri-lo no mundo dos humanos, ainda que seus hábitos sociais e alimentares não sejam compatíveis. A segunda mulher em evidência é o próprio vilão Arquibaldo Surrupião, um exterminador de boxtrolls, que eventualmente se traveste e adquire a personalidade de uma cantora aristocrática, alvo do interesse do líder dos Chapéus-Brancos, uma sociedade de apreciadores de queijo que parece exercer funções legislativas e executivas na cidadela. Em ambos os casos, o conflito de identidade, social ou de gênero, se faz presente.

A Laika vem resgatando não só narrativas que equilibram a pureza e ingenuidade de outras épocas com a esperteza da pós-modernidade, mas faz algo semelhante na técnica de animação. Tanto em Coraline, quanto em Paranorman e Boxtrolls, há um predomínio da técnica tradicional do stop-motion, em desuso no cinema americano, mas também trabalha com CGI contemporâneo em vários momentos.

Os diretores Graham Annable e Anthony Stacchi trabalham artesanalmente cada departamento - tanto o belo design que contrasta o apático mundo dos humanos ao pequeno, mas confortável mundo dos boxtrolls. Destaco também a trilha musical, comandada por Dario Marianelli, que mistura os ruídos diegéticos a musica incidental, algo semelhante a que fez no melodrama Desejo e Reparação, mas aqui desenvolve não só uma função lúdica, como também uma função dramática, ao desenvolver a ligação entre Ovo e seu pai adotivo Peixe através da música.

Os Boxtrolls é uma narrativa sensível e criativa, construída através de um trabalho artesanal impressionante. Um filme que deve ser valorizado como a grande animação que é. Aguardo ansioso pelos próximos trabalhos da LAIKA.

Poltronas 

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