Um Conto Chinês

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Enviado por Maza em qua, 08/31/2011 - 20:21

Nos anos 80 era comum, na minha infância, observar programas de TV com apresentadores em ascensão, fazendo de tudo um pouco para alcançar notoriedade e audiência. Nisso, lembro claramente de um quadro, o “ parece mentira, mas não é” , onde nos eram mostradas notícias das mais bizarras, bisonhas e absurdas possíveis, desafiando plenamente a inteligência da plateia: “presidente russo é filho de alienígena”; “criança nasce pelo pé”; “sequestradores pedem como resgate 1000 pizzas de cebola para liberar refém”; a criatividade e insanidade rolavam soltas nessas matérias. Mas, e se de fato algumas dessas matérias fossem verdadeiras? E se de fato os sequestradores amassem pizzas de cebola? Em um local indefinido nos é apresentado um barco em meio a um lago. Em um dia calmo e  tranquilo,  um casal de chineses observa de forma serena o dia aberto e iluminado. O homem então pretende pedir a moça em casamento, porém sua decisão é impedida de ser realizada, pois uma vaca cai do céu e mata sua futura esposa. Real, delírio, absurdo? Tal fato é o ponto de partida de Um Conto Chinês.

Após esse início no mínimo inusitado, somos levados para Buenos Aires, Argentina. Roberto (Ricardo Darín) é dono de uma loja de ferragens. Indignado (e com razão), reclama aos berros de uma entrega de pregos que recebeu com menor quantidade do que o previsto na embalagem. Aos poucos, observamos que esse olhar atento não faz parte apenas da profissão de Roberto, mas de seu perfil: tudo em sua vida parece ser plenamente programado, desde o horário de dormir, com hora marcada, até o café da manhã, com o pão sem miolo. Roberto é uma pessoa que sempre encontramos com um olhar que se não é de tristeza, é de resignação, e até de saudade de uma vida que não conseguiu viver plenamente com seu pai, sua mãe, ou um amor que seja. Em meio a isso, ele recebe toda semana de seu amigo, jornais e revistas de vários países, das mais diversas culturas. Seu fascínio é de simplesmente colecionar notícias incríveis, notas absurdas, cada qual mais que a outra, que o deixa encantado. Em um momento de pausa no trabalho, enquanto aprecia o decolar e pousar de aviões, observa um chinês sendo chutado para fora de um táxi. Perdido em uma terra em que se fala somente o espanhol, o estrangeiro com sua língua chinesa se vê isolado em meio a uma cultura totalmente diferente de tudo o que estava acostumado, e será Roberto quem terá que lidar com isso e tentar ajudar o mesmo a encontrar seu rumo, sua família novamente. 

É curioso observar como um filme assim consegue funcionar tão bem na maior parte dos casos, muito disso em função do seu elenco qualificado. Mari, (Muriel Santa Ana) que faz o clássico papel da mulher apaixonada pelo protagonista, é retratada de maneira franca, uma pessoa alegre, que parece nunca desistir de Roberto, e que mesmo diante de sua resistência consegue seguir sua vida sem que isso a deprima (embora a deixe desanimada como observamos em alguns momentos). Leonel, o cunhado de Mari, mesmo que com pequena participação, se destaca pela sua lealdade e nunca questiona/julga os gostos bizarros dele. Mas, sem dúvida, é a dupla principal que carrega boa parte do filme: Jun (Ignacio Huang) faz um chinês que mesmo que não entendamos nada de suas palavras, compreendemos perfeitamente o drama com o qual está lidando. E Ricardo Darín entrega mais uma ótima atuação, carregada, de um personagem que por vezes pode parecer ranzinza, mas é determinado, justo, e que sempre que lê as notícias absurdas, encontramos sua alegria genuína a respeito daquilo que observou, como se aquilo tudo fosse uma bela bobagem, impossível de acontecer na vida real.

O roteiro de Sebastián Borensztein (também diretor do filme) é bastante feliz ao retratar essas diferenças culturais, onde a dificuldade de comunicação falada acaba sendo substituída por outros meios não tão comuns, tais como gestos e olhares. A câmara de Sebastián, quando encontra seus atores, mostra planos abertos para observarmos os movimentos de Roberto ao se comunicar com Jun, mas também nos mostra os olhares dos dois, e através deles entendemos o que cada um quer dizer (ou ao menos essa é a nossa percepção). Aliado a isso, a direção de arte de Laura Musso trabalha de forma eficiente ao nos exibir o solitário Roberto em sua residência, uma morada que não tem adornos, onde os móveis e ambientes são neutros, tendo como exceção um altar que ele  mantém em homenagem à mãe e ainda sua coleção de peças minúsculas, sempre em formato de animais (e confesso que me passou ao olhar, mas é possível sim que tenha uma vaquinha em miniatura ali). Engraçado ainda, observar que nos poucos momentos em que os dois personagens acabam se dando bem é em meio às refeições, mostrando a estranheza de Jun para certos alimentos e uma ou outra indireta de Roberto para que Jun saboreie alimentos deliciosos, que por incrível que pareça os chineses não conseguiram criar, e que então os argentinos passaram na frente (vide o doce de leite). Ótimo ainda perceber que as notícias absurdas, quando lidas por Roberto, são mostradas como se os protagonistas daquelas histórias fossem os próprios protagonistas do filme, trazendo maior dinamismo e graça para a obra.  

 
 
Embora a história seja bem contada, percebemos algumas falhas nítidas: é  válido que o diretor nos mostre o senso de nobreza de Roberto ao procurar a polícia para auxiliar na busca de Jun por sua família e que seja tratado com desprezo, com a resposta de que será preparada uma cela para colocar o chinês porque assim deseja o policial, detonando uma crítica, mesmo que simplória e básica, ao sistema penitenciário argentino (e talvez em vários locais do mundo). Ao invés de ficar nisso, a temática retorna em determinada parte do segundo ato de forma boba e superficial, sendo completamente desnecessária para a trama. Outro aspecto inexplicável é a dificuldade de comunicação dos personagens  com Jun . Ora, como Roberto mesmo diz, em um mundo com 1 bilhão e 300 milhões de chineses, por que raios é tão difícil encontrar um intérprete para traduzir as conversas de Jun, o que só acaba acontecendo através de uma casualidade, por um entregador de comida chinesa. Acasos como esse enfraquecem parte da trama. 
 
Entretanto, é satisfatório notar que a obra nos entrega um belo momento em seu terceiro ato, onde revelações são exibidas de forma, que se não original, adequada e coerente com a história de seus protagonistas. Nisso, é preciso ressaltar que Sebastián Borensztein foge a uma regra quase que habitual de mostrar tais revelações em pequenas partes ao longo de todo filme, que aqui só diminuiria o impacto do que será exposto  em cena e que tem relação direta, entre outros pontos, com a coleção de Roberto, o horário de seu repouso, entre outros detalhes. Aqui, o tom de comédia é mudado fortemente para o drama, e mais uma vez a cena por vezes quase nos é mostrada sem diálogos, apenas os takes no rosto de Jun são suficientes para acompanhar o drama e o sofrimento daquela pessoa.
 
 
Finalizando a obra de maneira mais curta e abrupta do que se poderia imaginar (o que acaba se saindo por um momento decepcionante, por justamente carecer de um desenvolvimento maior de sua história central), Um Conto Chinês ainda se apresenta plenamente coerente ao fazer relação com seu início, onde às vezes ninguém fica indiferente a um olhar, seja esse de felicidade ao ver uma nova perspectiva para sua vida, ou principalmente, um olhar de sofrimento em um animal que parece em nada ser irracional, estando plenamente ciente da morte que lhe virá seguir. Pode não ser o filme mais impecável do excepcional e versátil ator que é Ricardo Darín, mas felizmente é uma comédia dramática de culturas diferentes e onde às vezes uma história absurda pode render um filme, que mesmo com alguns tropeços, é de qualidade nítida e só ressalta a diversidade do cinema argentino da última década para cá. De comédias engraçadas, passando por drama oscarizado e quem diria, indo de encontro a um conto de uma vaca que cai do céu: nossos hermanos são mesmo entendidos em cinema (de qualidade). 
 
OBSERVAÇÃO: há uma cena adicional em meio aos créditos finais, mas que particularmente, a achei plenamente desnecessária.
 

Poltronas 

4

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